O Urubú

Não, pra viver comendo porcaria, nem para andar de luto fechado. Mas, pra voar e voar bem. Falo com a autoridade de quem vive voando de ultraleve, e sempre de olho na arte de planar que a natureza concedeu a esse navegante dos ares. Entre os seres vivos capazes de voar, nenhum chega aos pás do urubu.

A criatura é a própria serenidade. Nao comete uma imprudência, uma bravata, sequer. Vôo noturno com ele, nem pensar. Quando vem chegando o pôr-do-sol, o urubu vai descendo os trens de pouso, aterrissa.

Piloto de asa delta, piloto de planador, piloto de ultraleve, quem quer curtir uma térmica, vai firme nas águas do urubu. Onde houver uma bolha de ar quente, ali estará, com certeza, um urubu, planando, sem bater asa, uma única vez, economizando energia.

O urubu, mais que voa, sobrevoa, mais que isso, passa o dia pelo céu feito anjo de férias. A gaivota é quem mais se aproxima do urubu em matéria de plácidez.

Mas, por questão de sobrevivência, a gaivota tem que viver fazendo manobras radicais. Verdadeiros mergulhos de avião de caca. Nao é fácil, de repente, ter que enflechar as asas, lá no alto, pra vir fisgar, de bico, um peixe mais afoito que resolveu dar sopa na superfície.

Sua pressa não espera.Já o urubu não precisa correr atrás.

Nefasto repasto. Urubu não tem pressa, jamais. O negócio dele é asas ao vento.

Voar de passatempo. A borboleta deve morrer de inveja do urubu. Enfeita-se toda, arabescos coloridos. Cada asa parece um vitral de igreja. Mas como voa mal! Vai aos solavancos. Vôo solucante.

Estou convencido de que foi a borboleta que inventou a turbulência. Assim como deve ter sido o besouro que inventou o desastre de avião. Adulto, poético, angelical é o planeio do urubu.

Feliz da criatura cuja sina é voar. Quando eu passo por um urubu, no meu ultraleve, ele me olha de traves, de ombro, desdenha do meu vôo artificial e vai em frente, movido a milagre.

Augusto dos Anjos via na cor sombria do urubu um sinal de mau agouro. Prefiro ficar com Tom Jobim que canta o urubu como o mais importante das aves: “As grandes asas expandidas cavalgam as bolhas de ar quente emergentes da ravina.” O vôo do urubu é o vôo mais solene que existe.

Luto fechado, coisa nenhuma. Urubu voa de traje à rigor.

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